agosto 13, 2010

De besta a bestial


Estas últimas semanas têm sido muito ricas no que à mudança de designações diz respeito, no que concerne diferentes personal idades do mundo do futebol. Poderia ilustrar este artigo apontando o nome de Maradona, que chegou ao mundial como o mal-amado e é hoje herói. Poderia referir Fábio Capello que, no sentido inverso, se vê abandonado e sem apoio. Ou também, Marcello Lippi, Raymond Domenech…e vários outros cujos percursos de carreira parecem alterar-se drasticamente. Mas, prefiro pegar no nosso exemplo. Afinal o que não nos falta cá no nosso Portugal, são espécimens perfeitos para representar esta sucessiva troca de papéis.

Centremo-nos no Prof. Carlos Queirós: alguém que iniciou sua carreira praticamente como vencedor ao conquistar 2 campeonatos do mundo de sub-20 com aquela que foi a geração de ouro. Passa depois por outras selecções, como a África do Sul, e alguns clubes, como Real Madrid, permanecendo em cada um por um período muito curto, até se tornar protegido de Alex Ferguson no Manchester United. Nada mais ganhou após as suas primeiras conquistas, o que o coloca como o principiante cheio de sorte. É visto como um teórico que não possui carisma suficiente para gerar a ligação empática necessária para que homens feitos trabalhem como equipa. No entanto, apresenta-se sempre como dono da verdade. Senhor de um pretensiosismo desmedido que o tornam incapaz de justificar as suas escolhas e totalmente avesso a criticas ao seu desempenho. Fala como um imperador que sobre o seu trono não necessita dos conselhos de ninguém. Afasta todos os que pensam de forma diferente, e penaliza os que expressam essa diferença, gerando um ambiente de ditadura no seio de uma sociedade democrática. Por momentos esqueci-me de quem falava, podia jurar que era do nosso Primeiro-ministro.

A meu ver, o desporto colectivo ilustra na perfeição o funcionamento das sociedades. Há um objectivo comum a todos, uma estrutura hierarquia perfeitamente definida. Mais, existe um respeito inquebrável por essa estrutura tanto de baixo para cima, quanto de cima para baixo, reconhecendo a importância e o valor de todos individualmente e colectivamente. E, claro o incentivo constante ao trabalho exercido em prol do propósito comum. Quando estas características não são observadas, a anarquia instala-se e é o salve-se quem puder.

Quem pode por isso recriminar o nosso seleccionador pelo comportamento que tem, se tudo em Portugal ocorre perante os mesmos padrões? De que adianta ser-se besta e correr o risco de nunca se virar bestial?

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